Há 20 anos, São Paulo parou durante série de ataques do PCC contra alvos da polícia
06/05/2026
(Foto: Reprodução) Crimes de Maio, o dia em que São Paulo parou: onda de violência no estado completa 20 anos
Há vinte anos, São Paulo vivia um dia de medo e caos durante a onda de ataques do crime organizado contra alvos policiais. Bases da polícia, bombeiros, agentes penitenciários e policiais de folga foram atacados em ações orquestradas pelo PCC. O dia 15 de maio de 2006, uma segunda-feira, marcou o ápice da onda de violência iniciada alguns dias antes. Naquele dia, a cidade de São Paulo parou.
Antes, os integrantes do PCC já tinham começado a chamar a atenção da imprensa e da sociedade, com rebeliões em presídios e presos protestando contra a transferência de membros da facção para uma penitenciária de segurança máxima na véspera do Dia das Mães.
Depois, integrantes da facção soltos nas ruas passaram a receber os "salves" (ordens de dentro das cadeias) para atacarem alvos da segurança do governo estadual. Se os criminosos não obedecessem, seriam mortos pela própria organização. Bases foram alvejadas a tiros e agentes de folga acabaram baleados e mortos de surpresa pelos bandidos.
Com isso, São Paulo viveu um lockdown 14 anos antes da pandemia de Covid. O medo se multiplicou com boatos sobre ataques a pontos de ônibus, lojas, escolas e shopping centers. A capital ficou paralisada. O transporte público parou de funcionar e o comércio fechou as portas. Os ônibus, que estavam sendo alvo de ataques dos criminosos, sumiram das ruas.
As empresas liberaram seus funcionários mais cedo. O congestionamento na cidade foi recorde: às 18h, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou 212 km de vias paradas, contra média de 58 km. A marca foi recorde para o horário. As ruas ficaram desertas.
Segundo a Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (ADPESP), 56 agentes de segurança foram mortos comprovadamente por integrantes do PCC.
Nos dias seguintes, uma suposta retaliação aos ataques contra a polícia resultou na morte de civis. De acordo com levantamento feito pela Conectas Direitos Humanos em parceria com o Laboratório da Análise da Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 564 pessoas foram baleadas e mortas durante a onda de violência que ocorreu naquele mês de maio de 2006.
Cronologia ataques
10 de maio de 2006
Em depoimento em sessão secreta na Comissão Parlamentar de Inquérito das Armas, em Brasília, dois delegados do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) de São Paulo anteciparam aos parlamentares que 765 presos do PCC seriam transferidos no dia seguinte para penitenciárias de segurança máxima de Presidente Venceslau e Presidente Bernardes. O motivo: a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) tinha a informação de que a cúpula da organização planejava deflagrar, em agosto, uma megarrebelião em presídios.
11 de maio de 2006
Na quinta-feira (11), a informação da transferência dos presos chegou ao conhecimento da cúpula da facção. A SAP deu início às transferências dos presos.
12 de maio de 2006
Por volta das 14h de sexta-feira (12) presos começaram a fazer rebeliões nos presídios paulistas e ataques a bases policiais, guardas municipais e agentes penitenciários. Informação de escuta telefônica gravada pela Polícia Federal (PF) e encaminhada perto das 17h às forças de segurança de São Paulo comprovou que o PCC ordenou as execuções em retaliação às transferências de presos. A ação criminosa deixou 21 mortos e 15 feridos entre a noite de sexta e a madrugada de sábado (13). O chefe da facção, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, foi levado ao Deic, na capital, porque a Polícia Civil tinha informação de que ele havia ordenado os ataques. Marcola teria proposto um acordo para cessar os ataques em troca da permissão para os presos receberem visitas no Dia das Mães, no domingo (14).
13 de maio de 2006
Criminosos mataram o bombeiro João Alberto da Costa na madrugada de sábado (13), na Alameda Barão de Piracicaba, na região central, onde funciona o 2º Grupamento de Bombeiros de São Paulo. A onda de rebeliões em presídios e de ataques da facção foram intensificadas ao longo do dia. Ao todo, 22 unidades prisionais foram rebeladas, com presos fazendo funcionários reféns. Nas ruas, foram 69 atentados, 27 policiais e 1 civil foram mortos. Outros ataques foram feitos contra postos da polícia no litoral e no interior do estado.
14 de maio de 2006
No domingo (14), o comando do crime organizado mudou os alvos dos ataques: agências bancárias são atingidas por tiros e bombas caseiras. Criminosos atiraram três granadas contra o Fórum Regional de Santana, na Zona Norte da capital. Ao menos 50 ônibus foram incendiados. Por três dias, 25 mil detentos de 73 unidades prisionais no estado permaneceram rebelados.
15 de maio de 2006
Na segunda-feira (15), os ataques e rebeliões começaram a cessar, mas mesmo assim a cidade de São Paulo viveu horas de caos. Por conta do medo e de boatos sobre ataques a pontos de ônibus, lojas, escolas e shopping centers, a capital ficou paralisada. O transporte público parou de funcionar e o comércio fechou as portas.
16 de maio de 2006
Mesmo com a redução de ataques a alvos policiais, na segunda-feira (16) foram registrados mais cinco mortos em supostos confrontos entre a polícia e suspeitos. Até 20 de maio, dezenas de civis foram executados, muitos sem passagem pela polícia.
Meses seguintes
Uma segunda onda de ataques foi feita pela facção entre 12 e 17 de julho contra alvos civis e militares como ônibus, supermercados, agências bancárias, concessionárias de automóveis e sindicatos. Em 7 de agosto, novos ataques foram feitos incluindo o de uma bomba atirada na sede do Ministério Público (MP) de São Paulo. No dia 9 de agosto, a SSP anunciou a prisão de 33 pessoas suspeitas de ligação com os ataques em São Paulo. A Justiça decidiu permitir a saída dos presos do regime semiaberto no Dia dos Pais.
Crimes de Maio, 20 anos depois: onda de violência em São Paulo completa uma década
Vítimas
Quem viveu aqueles dias de pânico não esquece. "Para mim, é como se fosse hoje. Eu lembro como se fosse hoje, não sai da cabeça, não esqueço”, disse ao g1 o soldado da PM reformado Carlos Alberto Oliveira, quando os crimes de maio fizeram 10 anos, em 2016. “Está na mente, faz parte de mim aquele dia." Ele sobreviveu a 11 tiros que levou de oito bandidos que o cercaram quando ele saía com a família de uma igreja em Santos, no litoral paulista.
O soldado foi baleado no rosto, no peito, nos braços, nas pernas, na barriga, nas costas. "Pensei que não teria mais movimentos, o próprio andar, praticamente troquei meu sangue todo, tive três paradas cardíacas, perfurei os pulmões, o intestino." Oliveira ainda carrega três projéteis no corpo, um no rosto e dois próximos da coluna vertebral. A filha de dois anos foi baleada na perna e também sobreviveu.
"Eu perdi um policial da cavalaria chamado Vander", relata o tenente-coronel da PM, Alberto Sardilli. "Ele era professor de artes marciais e foi morto pelo crime organizado dentro da academia onde trabalhava." Na época dos ataques, Sardilli era capitão da Polícia Militar (PM). "Assim como toda a sociedade de São Paulo, fomos pegos com uma certa surpresa. No meu nível do conhecimento, eu não tinha conhecimento de absolutamente nada, como capitão. Eu comandava a 3ª companhia e até então era uma situação corriqueira, na normalidade", disse.
Depois, no contra-ataque da PM, Vera Lúcia de Freitas perdeu a filha Ana Paula, o genro Eddie Joey, e Bianca, a neta que estava pronta para nascer. Ana Paula iria se internar para ter a menina um dia depois de ser morta quando a família foi atacada por quatro homens, em Santos. "Ele simplesmente puxou o gatilho, à queima roupa. O Joey se jogou em cima dela, e aí eles atiraram muito pelas costas do Joey. [...] Um dos que correu voltou e antes de entrar no carro atirou na barriga dela, dizendo que filho de bandido, bandido era", relatou ao g1 em 2016. Vera morreu em 2018 sem receber indenização pelas mortes.
Mãe de maio
Fabio Tito/G1
A Secretaria da Segurança sempre se posicionou dizendo que os crimes forma investigados à época.
“A Polícia Civil investigou, por meio de inquérito policial, todos os casos registrados referentes aos ataques em 2006. As investigações foram acompanhadas pelo Ministério Público e, depois de concluídas, relatadas ao Poder Judiciário”, diz.
Ordem dos ataques
O ex-delegado-geral da Polícia Civil, Marco Antonio Desgualdo, que estava à frente do cargo durante os crimes de maio, admitiu que ordenou aos policiais para irem “pra cima” dos criminosos que estavam atacando as forças de segurança e matando policiais civis e militares nas ruas do estado.
“A polícia contra-atacou. A polícia fez prisões, muita gente foi presa, houve confrontos, muita gente também morreu. Na polícia civil, foram seis policiais”, disse Desgualdo ao g1, em 2016, que determinou a seus subordinados a reação: " A ordem foi ir pra cima. Você tinha que apagar a fogueira. A polícia deu a resposta”, justificou o ex-delegado-geral.
Questionado se houve excesso por parte dos policiais, Desgualdo respondeu que pode ter ocorrido em situações pontuais. "Um ou outro caso talvez. Mas excesso de uma maneira geral não houve. Houve um contra-ataque dentro dos limites."
Denúncias chegaram à Ouvidoria da Polícia sobre grupos de extermínio formados por policiais à paisana, encapuzados em carros e motos, dispostos a matar quem já teve passagem criminal, como uma maneira de vingar as mortes dos colegas e dar um recado a facção. Segundo a ouvidoria, dos 493 assassinatos analisados pelo órgão em maio de 2006, 89 mortes apresentaram indícios de execução.
“Houve várias mortes de policiais naquela ocasião. E, a partir daquelas mortes, houve uma retaliação por parte, na época, da polícia do estado de São Paulo”, disse Neves.
O Ministério Público (MP) denunciou à época aproximadamente 30 pessoas por assassinatos, entre membros da facção e agentes públicos, de acordo com o procurador Marcio Christino, promotor em 2006. “Foi uma coisa pontual naquele momento”, respondeu o procurador ao g1, em 2016, ao ser indagado sobre a suspeita de que policiais cometeram execuções.
A Promotoria denunciou dois policiais militares por assassinato. Eles acabaram condenados pela Justiça, mas não foram presos e recorrem das decisões em liberdade.
Processos
As organizações Conectas Direitos Humanos e o movimento Mães de Maio enviaram nesta segunda-feira (4) um apelo urgente à Organização das Nações Unidas (ONU) cobrando pressão internacional sobre o Estado brasileiro por justiça, memória e reparação às vítimas dos crimes de maio de 2006.
No texto, as entidades afirmam que o Brasil vive a iminência de uma decisão considerada histórica no Superior Tribunal de Justiça: o reconhecimento ou não de que os episódios configuram graves violações de direitos humanos e, por isso, seriam imprescritíveis para fins de reparação.
O documento sustenta que “nenhuma dessas execuções foi devidamente esclarecida, nenhum agente do Estado foi responsabilizado e tampouco as famílias das vítimas receberam reparação adequada”.
Em 2021, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), decidiu julgar o estado brasileiro por suspeita de violação aos direitos humanos e omissão na investigação dos crimes de maio. A Conectas aguarda a análise do mérito, se vão acatar a denúncia contra o Brasil, e se irão ou não fazer recomendações ao estado.
O tema também está em análise no Superior Tribunal de Justiça em recurso apresentado pelo Ministério Público de São Paulo e pela Defensoria Pública.
Na penúltima sessão, o ministro Teodoro Silva Santos, relator do caso, votou pelo reconhecimento de que os crimes de maio configuram graves violações de direitos humanos e, portanto, não estão sujeitos à prescrição.
No voto, o ministro afirmou que ações de indenização ligadas aos episódios de 2006 não devem ser atingidas pelo prazo de cinco anos previsto no Decreto nº 20.910/32. Segundo ele, aplicar a prescrição nesses casos significaria perpetuar a impunidade e contrariar compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.
O Ministério Público de São Paulo pediu na ação civil pública que o Estado seja condenado a pagar indenizações de R$ 136 mil para cada família de vítima fatal e R$ 68 mil para sobreviventes feridos, além de acompanhamento psicológico e pedido formal de desculpas.
Recentemente, porém, o julgamento voltou a ser interrompido. Depois do voto do relator, o ministro Marco Aurélio Bellizze pediu vista, e a análise foi suspensa.
Em 2022, o STJ decidiu, por unanimidade, federalizar as investigações sobre os crimes de maio de 2006 no Parque Bristol, na capital paulista. O tribunal reconheceu as falhas na investigação feita pelos órgãos públicos estaduais de São Paulo.
Em 14 de maio de 2006, cinco jovens foram atacados por um grupo de homens encapuzados. Três morreram na hora. Um dos sobreviventes foi morto seis meses depois. O caso foi arquivado pelo Ministério Público de São Paulo pela ausência de provas.
Segundo a Conectas, a investigação só começou, de fato, no final de 2024. No início desse ano, a PF fez um relatório sobre a investigação e concluiu que não há como indicar a autoria das execuções e, provavelmente, os crimes irão prescrever sem que haja qualquer responsabilização dos executores. A Conectas aguarda a análise do MPF sobre esse relatório.
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